Onde está o Wally? Talento procura-se…

É quase como procurar o Wally: intrigante, frustrante, mas sempre desafiante. A narrativa em torno da escassez de talento no setor da ótica ocular tem sido, no mínimo, mal contada. É verdade que enfrentamos uma crise de mão de obra especializada à escala global, mas é igualmente verdade que o nosso setor, com toda a sua riqueza multidisciplinar, deveria destacar-se como uma escolha de excelência para os jovens em busca de propósito e desenvolvimento profissional.

Na ótica, cruzam-se saberes e práticas: saúde visual, tecnologia de ponta, inovação permanente, estética e moda. E ainda há espaço para muito mais, como as competências relacionais e o conhecimento do comportamento humano, que são continuamente postos à prova no contacto direto com os clientes. Com esta visão, arrisco dizer: estamos a perder uma grande oportunidade. Num tempo em que tantos setores lutam por atratividade, o nosso deveria estar melhor posicionado, não apenas como saída profissional, mas como um caminho de futuro. A escassez de talento, se não for invertida, impactará inevitavelmente o desempenho económico das empresas e, por arrasto, a sustentabilidade de todo o setor.

A pandemia ficou marcada como um ponto de rutura, um agente disruptivo que expôs fragilidades estruturais e acelerou mudanças sistémicas na ordem global. No período pós-pandemia, ou d.P. (num paralelismo assumidamente abusivo com as referências históricas a.C. e d.C.), emergiu com força o debate generalizado em torno da saúde mental e das suas várias expressões multigeracionais. Com particular ênfase na geração Z, o tempo passou a ser percebido como um bem intangível de alto valor, cada vez mais integrado no conceito de “pacote salarial”. A valorização do tempo livre, da flexibilidade e do equilíbrio vida-trabalho tornou-se central na escolha de um emprego. Paradoxalmente, a montante, assistimos ao aumento na procura de experiências tangíveis, viagens, gastronomia de autor ou eventos culturais que, inevitavelmente, exigem uma remuneração materialmente significativa. Esta equação entre tempo e rendimento está, porém, profundamente desajustada. E esse desajuste é perigoso, não só do ponto de vista do empregador, que enfrenta dificuldades em atrair e reter talento, mas também para o próprio candidato, que ignora por vezes os compromissos necessários à sustentabilidade do estilo de vida que ambiciona.

Artigo de opinião pela AASO na Millioneyes 147

Rui Motty

Presidente da Associação de Apoio à Sustentabilidade da Ótica (AASO) CEO Optocentro, Lda, Vice-Presidente da Câmara de Comércio Portugal Moçambique (CCPM) ,Membro Fundador da Associação Portuguesa de Posturologia